Essa terra é apelidada mística e não é de hoje. Antes mesmo de nascer, esse lado do globo já contava suas histórias ultra realistas que até pescador duvida. O primeiro a decifrar em palavras escritas o que a terra balbuciava foi Garcia Márquez. Cresci com papai contando-me casos desse homem que só conheci por livros, mas que pareceu ser meu amigo desde sempre. Tornava-se humano e real em minha frente por meio da voz de papai. Foi meu amigo imaginário que todas as crianças têm.
O café sempre foi tradição para nossa família. Ouvia
as histórias
sentado na varanda com minha xícara na mão, atento às
palavras que ameaçavam sair do papel e cochichar em meus ouvidos atentos. Brincavam com
meu imaginário. Como se o café fosse feito excepcionalmente para ouvir
realismo mágico.
- Tome café sem açúcar, Juan. Concentre-se na língua e te asseguro que é possível sentir
o gosto das cordilheiras!
Papai dizia que era possível sentir o gosto da Colômbia tomando
café. Nunca
dizia onde eram plantados os grãos, somente me revelava que ficavam por detrás das
montanhas. Como se o solo tivesse que ser intocado e místico. Protegido
como tesouro.
Certa vez me contou uma lenda que nunca mais saíra de
minha cabeça:
- Sua avó dizia que quando se vê uma plantação de café
pessoalmente, logo depois o amor de sua vida aparece! Assim foi comigo e sua mãe!
Cresci e já tinha acabado de atingir a maioridade e meu sonho ainda estava
somente no intocável. Na realidade não estava tão interessado em encontrar o
amor de minha vida, queria mesmo era ver como aquela bebida mágica
surgia da terra. As mulheres de Medellín não me chamavam atenção.
As festas de aniversario da família eram ideais para conhecer moças
novas. As filhas dos amigos de meus pais adoravam dançar ao
som da sanfona com suas saias rodadas coloridas. Era cativante de fato. Gostava
mesmo era de bater palma e vê-las dançarem, mas sempre me puxavam a
fim de passar vergonha no meio. Certa mulher me chamou atenção desde
o início,
perguntei ao Carlos o nome dela. Chamava-se Madalena. Como disse, as mulheres daquela cidade me passavam despercebidas. Faltava algo nelas, mas naquela noite, Madalena foi aquelas brisas que fazem cócegas e nos provocam sorrisos soltos.
A cumbia era hipnotizante. A partir deste momento me entregava. Este som deve estar no meio das coisas místicas que este país cria. Por momentos pensava que os ombros da moça viravam maracas que beijavam o céu.
A cumbia era hipnotizante. A partir deste momento me entregava. Este som deve estar no meio das coisas místicas que este país cria. Por momentos pensava que os ombros da moça viravam maracas que beijavam o céu.
Logo depois, enquanto os mais velhos conversavam alto tomando rum, convidei
a moça para
tomar café comigo. Não entendia a graça do rum, perto do café. Uma conversa pode ir mais além com café.
Madalena era do litoral. Nascera no caribe e viera morar com seus pais
por esses lados. Estava explicado porquê ela me interessava tanto.
Possuía uma risada que transcendia a musica e me fazia delirar sem
mesmo ler Garcia Márquez ou começado a tomar café. Seu
riso fácil e
seus olhos rápidos me ludibriavam como alucinógenos. Pudera jurar que sua alma
continuava a dançar através de seus olhos. Ela era diferente.
A noite era gostosa. O céu era estrelado e os ecos das
risadas dos mais velhos embriagados na cozinha, não atrapalhavam nossa conversa na
varanda. A brisa balançava as palmeiras e servia de trilha sonora às histórias que
ela me contava. Anedotas interessantíssimas sobre sua região que me
faziam fixar cada vez mais o olhar.
- Esse autor que você tanto fala nasceu em minha cidade, Juán!
Pela primeira vez na vida, uma alma me cativara a tal ponto de igualar
o café.
Madalena também conhecera meu autor preferido e gostava de seus textos. A partir desse momento, a noite
voou como nunca vi. Entramos em comunhão nós
quatro. Eu, Madalena, o Café e Garcia Márquez. Desfrutamos a madrugada
como amigos boêmios bêbados sem álcool.
Quando Madalena se fora, me senti vazio. Como se tivesse acabado de
ler O amor nos Tempos do Cólera e sentisse um eco enorme pela história ter
acabado. Precisava ter ela ao meu lado. Precisaríamos de mais noites como essa!
Dormi pouco, no dia seguinte fui visitá-la a fim de convidá-la para
sair. Não tinha
a mínima ideia de
onde ir. Pouco interessava. Gostaria de visitar sua alma e seu mundo se possível.
Nunca antes havia me perfumado tanto e me penteado para ver uma
mulher. Meu pai me motivou e me encorajou.
- Mulheres gostam de surpresas, Juan! Vá e não avise!
Parti. Chegando à casa de Madalena ela se espantou. Mas era espanto de alegria. Seus
olhinhos brilhavam e podia ouvir seu coração batendo como tambores de
couro.
Saímos sem direção, guiados pela conversa. Quando me deparei já havíamos andado
por horas e as pernas já cansavam. Ela parou à beira de uma grande paisagem. A neblina era
densa e não podia ver nada. Mas o cheiro do grão preferido que subia no ar era fortíssimo.
Quando a névoa se foi, ela me disse ingenuamente:
- Olhe Juán. Essa é a maior plantação de café do país. Você já tinha visto antes?
Papai invertera a ordem. O amor de minha vida me apareceu primeiro,
logo depois conheci o café!
(Felipe Leonardo)

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