segunda-feira, 10 de julho de 2017

Carta póstuma





Lembro-me do fat
ídico dia,
No fim de tarde daquele sábado.
Despedi-me da querida marta,
E parti com os homens ao mar.

O barco era grande. Sete homens.
O cais já estava longe da proa,
O tímido vento que surgia,
Agitava a maré da baía.

A noite é escura e silenciosa,
Eu dormia, ao fundo do convés.
Quadro de Iemanjá frente à porta,
Como quem já pressente o revés.

O mar estava outro. Raivoso!
Não encontrei os homens a bordo,
A embarcação balançava alta,
Como criança que teme o mal!

Um raio forte do céu desceu,
E partiu o grande mastro em dois,
Saltei ao mar gelado e voraz,
Pedi ajuda aos meus orixás.

A estrela polar estava longe,
A lua baixa, beijava o mar.
Eu estava à deriva e tremia,
E o pensamento em Marta surtia,

- Tu sabes como é a tempestade!
Sentia água salgada na goela!
O ar, teimoso a mim bem fugia.
E o desespero me possuía.

E minha calma de marinheiro
Abandonava-me a cada instante....
A água quando entra aos pulmões,
Arde como queimadura à pele.

Minha visão turva se mesclava
Entre sal marinho e breu de estrelas.
Enquanto meu corpo se rendia,
Ao oceano que me engolia.

Não queimava mais como no início,
O mar já era parte do meu ser,
Meu interior era só liquido
E aos poucos estava a perecer.

Despedi-me da querida Marta,
No fim de tarde daquele sábado
Para juntar-me ao eterno amigo.
Salgado amigo que fiz de abrigo.



Felipe Leonardo

Nenhum comentário:

Postar um comentário