quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O guerreiro de um olho só na terra de todos os santos




'Eu vi um camaradinho
Na região do cacau
Zombar de um corpo fechado
De reza e de ritual
Cordão de Ouro dizia
Com jeito mais natural
Quem guarda o santo de guarda
Adia o juízo final.'


Toque de Amazonas - P. C. Pinheiro

   


     Na terra de São Salvador o Brasil começa. Bahia de todos os santos, cidade de um corpo fechado por metro quadrado. Terra de pele grossa e calejada, como o couro dos tambores dos terreiros. O sorriso dessa gente é natural e empolgado como os sorrisos dos capoeiras antes do jogo. Como quem desde criança já sabe que a vida foi feita pra gingar, e se a gente bater de frente, ela nos derruba na rasteira. Painho sempre dizia que escorregamos da barriga de nossas mães já sabendo gingar; nossa cor reluz na noite de lua cheia, e brilha ao sol do meio dia. Temos sangue de Orixá. Somos filhos de rei!
    Mainha era devota do Santo Jorge guerreiro, e também amava e muito as festas de São João e não se aguentou, pôs meu nome de Jorge Batista.  As vielas do Pelourinho sempre foram meu quintal. Conheço cada paralelepípedo fincado neste chão. Por aqui a festa é sempre mais farta.  
   Quando eu era ainda menino, aprendi a capoeira com meu tio Tobias. Dizia que a arte era a essência do nosso povo. Povo que luta dançando tem que se respeitar. Me contava as histórias mais bonitas que tinha ouvido. Escutava sua voz grave e rouca no escuro da noite como um farol da alma. Ainda que fosse muito jovem, me identificava com aquelas palavras, e sei que serviriam pra mim num futuro. Histórias de seus avós escravos, dos deuses que tinham a mesma cor que eu, e dos guerreiros da capoeira. Esses últimos com mais intensidade me lembro bem. Me contava muito de Besouro Mangangá, o maior guerreiro de capoeira que já existiu. Tio dizia que Besouro jogava protegido por seus guias, e que não levava desaforo pra casa. Era exímio no jogo de Santa-Maria, jogo perigoso onde ponhava navalha nos pés. Segundo o Tio, Besouro só desafiava sujeitos folgados. Não aceitava injustiça de jeito nenhum, e seus oponentes tomavam é suadouro.
    Tinha na figura de Besouro meu ídolo. Era o super herói justiceiro que sempre sonhei ser. Saía pelas ruas dando rabo de arraia no vento fingindo ser ele. Como se os movimentos das pernas me pudessem fazer voar. Quando se é criança, voar é só questão de crer.  
    Numa dessa noites abafadas, me lembro da primeira vez que escutei um tambor. Era uma quarta-feira e todos em casa juntamente dos meus irmãos mais velhos, vestiam suas roupas brancas. Sempre os via vestidos assim nesse dia. Pela primeira vez, me levavam junto com eles. Eu estava ansioso que não me aguentava pra descobrir afinal o que todos faziam.
- Se aprume, jorge. Que hoje é dia de terreiro! – Dizia meu irmão Ernesto, com um sorriso de canto de boca.
    O semblante de todos era muito alegre e sério ao mesmo tempo, e o clima de respeito era único. Quando o primeiro camarada tocou o atabaque me arrepiei todo e por fim descobri que compareciam todos em comunhão para encontrar os tais Orixás.
    Com o passar do tempo fui me intimidando com aqueles seres que, a maioria das pessoas não via, mas sentia. As roupas brancas, e coloridas representavam minha ancestralidade e podia sentí-las. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço, ou quando sentimos o calor delas. As almas estão ao nosso lado o tempo todo. Sem dúvidas, algumas estariam ao meu lado pra me ajudar nas batalhas da vida. Sem dúvidas, outras estariam pra me atrapalhar. Assim é a vida aqui, assim é a vida do lado de lá.
    A grande diferença é que as pessoas de pele e osso que nos atrapalham, nos aborrecem muito mais porque as vemos. Caso do tipo ocorreu em uma das rodas de capoeira que participava todos os sábados de tarde, depois do descanso de almoço. Armamos a roda em uma das esquinas do pelourinho e lá fazemos nossa festa, os turtistas param em peso pra nos ver, uns até querem participar e ficamos lá como uma vitrine cultural. Depois de meia horinha nos juntamos e vamos pro fundo do quintal de meu tio Tobias e lá fazemos nosso jogo. Não mais violento, embora mais sério e bem jogado!
    Nesse dia um rapaz novo havia entrado na roda. Alto, magro, cabelo crespo que nem o nosso, mas branco que nem leite. Recebemos muito bem todos por alí como uma família, mas esse camaradinho tinha algo muito de ruim. Seu olhar era baixo e fixo, quase que não piscava. Enquanto eu tocava o berimbau ele me olhava como que de canto de olho. Quando chegou minha vez de entrar no jogo, ele resolveu entrar também. Percebi a maneira agressiva dele de lutar, e quase que arrumamos confusão. Tio Tobias e o resto do povo tiveram que nos apartar.
- Óh Paí, tu é louco véi!? Onde já se viu meter essa força no pé! – Perguntei impetuoso
    Ele se calou e riu ironicamente saindo de fininho. Não viera sozinho, uns amigos o acompanhavam. Perguntei aos meus chegados mais próximos e nunca tinham visto o sujeito por alí. Só sabiam de seu nome; Tadeu.
    Naquele momento fiquei sem entender mas senti uma presença ruim do meu lado. Quase como uma ameaça. Orei a meus guias pedindo proteção.
    Passou-se a semana inteira e nem sinal do sujeito. Na noite da outra sexta-feita tive um sonho estranho. Me via lutando com ele na roda de capoeira. De seu lado, sombras voavam ao redor e me hipnotizavam. O chão era como se fosse todo em lama, e eu não conseguia parar em pé. Sussurros medonhos me atormentavam. Acordei suado e esbaforido dando rasteira no lençol.
    Ao sábado quando cheguei ele já estava por lá, como quem espera por mim. Nunca senti receio pra ir à roda com alguém. A capoeira era divertimento, tradição e respeito. Depois que o sujeito começou frequentar, fiquei até mais tímido. Povo todo comentava.
    A tarde estava quente e a maresia chegava até nós com a brisa. O mormaço baixou e eu suava mais que o normal. Quando chegou a vez de lutar contra meu carrasco misterioso, o clima não foi amistoso. Dei uma primeira esquiva, senti o pé do moço passar zunindo no meu ouvido. Ele revidou minha meia-lua e na volta me golpeou de supetão no rosto. Antes de apagar, ouvi a gritaria do povo e senti um estouro na vista esquerda tornando tudo branco.
    Nessas horas meu tio Tobias e meu camarada Ernesto que tomaram as rédeas. Eu fiquei caído no chão desacordado, enquanto eles dois corriam atrás do tal Tadeu, que depois do golpe dado, pulou o  muro e se meteu pro meio da mata. Caboclo covarde assim dá até pena. Desistiram de pegar o cabra quando olharam pra mim desacordado. Me levaram ao hospital o mais rápido possível às pressas com o povo todo alvoroçado. Juraram vingar o que fizeram comigo, mas essa vingança era minha, eles que se aquietassem.
    Nos três dias que fiquei internado meu tio e irmão foram prestar queixa na polícia. Na delegacia explicaram exatamente todo o ocorrido, levaram até testemunhas. Os policiais viram todos com roupas de capoeira e pensaram que estivéssemos brincando. Em plena Bahia atual, pra algumas pessoas a capoeira ainda é vadiagem. O negro não é levado a sério.
    Decidiram eles então buscar informação sobre Tadeu. Morava numa pensão pouco mais pro bairro, mas só encontraram um moço que dividia quarto com ele. Com um pouco de aperto o rapaz entregou tudo. Tadeu chegou de Feira de Santana recentemente. Parece que era de família rica, de posses. Veio pra cá meio que revoltoso pois seu pai não concordava com algumas coisas que fazia.
- Oxe, e que coisas assim tão feias ele fazia?
- Olhe, certeza eu não sei, mas povo diz que Tadeu tem a alma escura e mexe com uns santos de esquerda. Aquele lá é perigoso, cheio das magias ruins. Dizem que já matou um cabra lá pelos lados de Feira. Eu mesmo só converso o bom dia e boa noite e basta.
   Tio Tobias e meu irmão Ernesto saíram de lá pensativos. Tudo fazia mais sentido na cabeça deles pois o que eles desconfiavam, agora tinham certeza, esse tal Tadeu devia ter feito algum trabalho pra me lascar. Meus familiares até insinuaram fazer outro pra prejudicá-lo, eu falei que não. O mal feito a alguém, algum dia retornaria ao emissor em dobro. Creio na lei que nos rege e de mim só sai coisa boa.
   No dia da minha alta, os médicos deram o veredito. Perdi a vista esquerda e teria que me acostumar em ver o mundo só com a direita. Fiquei uma semana amoado na cama sem me levantar, olhando a janela do quarto onde o sol batia, escutando o som do carcará que viajava o sertão todo pra cantar na árvore do quintal. Era como se o pássaro me sacudisse com seu canto forte, como se fosse a voz de Ogum me sacudindo. A voz de meus guias sempre me sacudia.
    No sétimo dia tive um sonho. Vi Tadeu numa cabana no meio da mata pouco antes do brejo de São Cosme. Meu espírito de certo foi visitá-lo. Ele estava sozinho em reza com um monte de almas escuras ao redor. Meus guias me disseram que estava agradecendo ao trabalho feito. Ele tinha muita inveja da maneira como eu lutava e não queria me ver bem. Foi difícil pra eu entender isso.
    Acordei como quem já sabe de tudo, nunca dei muita atenção aos meus sonhos mas com o passar dos anos fui ficando ligeiro quanto a isso. Sentia as entidades que me protegiam. Sentir as entidades é como quando estamos de olhos fechados e uma pessoa respira perto de nós e sentimos o ventinho no braço.
    Acordei ansioso antes do sol nascer, preparei meu cuscuz com um café forte, vesti a primeira roupa que vi e fui ao encontro do caboclo. Fui a pé, sem pressa, como quem vai comprar pão. Me banhei de coragem, meus guias me acompanhavam e me sentia com o corpo fechado. Tinha a vista única, mas muitos olhos vigiavam meu caminho.
Ao chegar no local o susto que ele tomou foi tanto que ficou mais branco do que já era.
- Tá lembrado de mim, mano velho?
    Perguntei de maneira irônica e fui me aproximando. Ele foi indo pra trás como aqueles preás que a onça encurrala. Na árvore ao lado dele estava fincado um facão que de supetão ele arrancou e partiu pra cima de mim, cada golpe que ele tentava lançar, eu mesmo caolho, me esquivava com rapidez. Estávamos nós, eu e ele, sozinhos na mata com o dia recém raiado, dividindo o espaço entre pontapés e o canto dos passarinhos. Quem não tem nada a dever pras almas tem a consciência limpa e o pão do dia seguinte garantido. E assim fui para o combate sem temer.
    Na terceira tentativa de enfiar o facão em mim, agarrei seu braço e consegui desarmá-lo, foi quando ele, com um golpe baixo, me chutou entre as pernas. Caí no chão e gritei enquanto ele correu mata adentro.
    Nesse momento de delírio ouvi meus guias. Me disseram para eu esperar alí, naquele mesmo lugar e ter paciência. Por um momento pensei que estivessem brincando comigo. Passaram-se uma hora e meia e eu continuava lá, no esconderijo do cabra, só que sem ele.
    Foi quando a manhã já se aproximava do fim que escutei uns passos atrás da cabana. De duas uma; ou era um bicho perdido, ou o próprio Tadeu perdido. Subi em cima do galho do jatobá e fiquei na espreita. Pro meu espanto era o próprio Tadeu, que tinha andado em círculos e estava à deriva na mata, voltando ao mesmo lugar que saiu. Esperei o momento certo, pulei e o ataquei por cima. O golpe que dei o deixou desacordado. Por fim o peguei!
    Ao voltar pra cidade ninguém acreditava no que eu dissera. Meu tio Tobias apostava que tinha outro homem me ajudando a pegar o sujeito. Só conseguiram acreditar em mim quando o tal Tadeu abriu os olhos, me mirou espantado e começou a tremer. Contou tudo o que aconteceu com os queixos batendo de medo. Disse que eu tinha pacto com espírito ruim porque voava e lutava rápido com um olho só. Falou que Besouro Mangangá havia encarnado em mim.
    Uma semana depois o tal homem sumiu da cidade e nunca mais foi visto. Nas rodas de capoeira eu era chamado de Besouro voador. Por ironia da vida ganhei o apelido de meu ídolo maior. Perdi uma vista, mas ganhei a vigilância dos olhos dos Orixás.




Felipe Leonardo


Um comentário: