quarta-feira, 10 de abril de 2019

A queda de Nhô Gualberto e a mulher que não temia bala


   



    Gualberto era Nhô porque assim o chamavam. Nhô era mais preguiça de falar o pronome completo. Nas Minas Gerais, a gente abrevia o nome dos camaradas pra chegar ao assunto com mais facilidade.  Homem papudo, falador, impunha respeito a toda gente com seu jeito liso de falar, e pelo sangue perigoso que carregava nas veias.  Era desses que conta história de dar inveja a qualquer pescador. Sempre mostrava o troféu e suas riquezas, mas como o sujeito conseguia aquilo tudo era de se suspeitar. Nhô Gualberto era Filho de Sebastião das Dores, esse último, um dos primeiros moradores de Botumirim, era Deputado Federal e de muitas posses. Dores e posses tanto por aqui como em Belo Horizonte.
    Vizinhança mais antiga dizia que o filho havia puxado igualzinho o pai. Mulherengo de tudo, e não media esforços pra conquistar a mulher que quisesse. Pena que não durava com mulher nenhuma. O próprio por safadeza se enjoava das moças e se desfazia delas.  
    História que o povo nunca esquece foi quando Nhô Gualberto queria adquirir as terras de Seu Bentinho, um dos primeiros moradores de Botumirim. Ambição de granfino sem nada na cabeça é a pior das ambições.Querer juntar propriedades e terras a fim de andar com peito estufado que nem galo de briga, como se o dinheiro que eles juntassem, pudesse levar pra cova também. Bentinho, senhor respeitoso e bom, atleticano de coração, gostava de futebol que só ele, ajudava quem fosse sem olhar a quem, e mesmo sem estudo nenhum, sabia mais que muito letrado. Era envolvido honestamente em reuniões de reforma agrária. Jurava pra sí mesmo que um dia a justiça seria feita. Teve a má sorte de ser o escolhido pra uma conversa na fazendo do Magnata.
  - Pois bem, Seu Bentinho. O senhor sabe do apreço que tenho pelo senhor. Dou o dinheiro que quiser pelas terras.
  - E eu tenho o dobro de apreço pelo senhor, Nhô Gualberto, mas minha filha Lisandra está pra chegar da capital a fim de passar as férias aqui.  Quero recebê-la com aconchego. - Disse encismado.
    Nhô Gualberto, camarada mimado que só, não aceitava negativa nem de doutor, quanto mais de lavrador.  Na semana seguinte, quando a lua estava alta, juntou seus capangas e chegou na surdina na porta da propriedade de Seu Bentinho, pôs fogo na casa e o assassinou a sangue frio, junto de sua esposa. Vizinhança nunca soube ao certo quem havia cometido a atrocidade. Somente as suspeitas permaneceram pelo ar. Mas quem cutuca o povo ganha dívida com Deus.
    Logo após o ocorrido, Lisandra soube da tragédia e veio para Botumirim o mais rápido que pode. Moça estava desolada numa tristeza que doía. Lisandra era esperta e de coração justo, havia acabado de se formar na universidade da capital e decidiu de imediato morar em Botumirim. Jurava pra si Própria que descobriria o assassino de seus pais.
O que Nhô Gualberto não sabia era o problema que havia se metido. Lisandra como filha legítima de Seu Bentinho se apropriou das terras de seu pai como lhe cabia, o que enfureceu em dobro o assassino. Mas tudo se embololô de vez quando Nhô Gualberto viu a moça. Jurava a Deus que nunca havia visto mulher tão atraente.
  - Prestenção pai, mas será possível!? A moça é bonita que só!
Seu pai, Sebastião das Dores, que de ruim tinha o dobro do filho, viu a exclamação do apaixonado e logo sugeriu:
  - Taí. Ocê casa com a filha do falecido e toma as terras dela tudinho. Depois ocê vê o fim que dará pra ela.

    Nhô Gualberto ouviu encismado a sugestão e o sermão do pai. As terras ficaram em segundo plano depois que se interessou pela moça. Coração pela primeira vez batucava com força dentro daquela alma ruim. Mas pra camarada machista, a cegueira de amor transforma qualquer tipo de sentimento bom em ódio. Todas as mulheres com quem Nhô Gualberto se envolvera eram passivas por demais, por isso ele fazia o que lhe desse na telha.
    Lisandra vinha de Belo Horizonte, com seus ideais justos em mente e com ideia de continuar o trabalho que seu finado pai deixara. Participava de movimentos sociais e tinha a alma comunitária como ele. Além do mais, não abaixava a cabeça para homem, e sabia quando endurecer.  
Nhô Gualberto conhecia de potranca, distancia de alqueire e peso de gado. Normalmente associava potrancas às meninas. A alma corrupta de deputado que seu pai tinha, ele também puxou.
Passados três meses, Lisandra já conhecia toda a cidade. O peso da morte do pai a cutucava a cada dia, mas mesmo assim, ela seguia firme com o projeto ligado à reforma agrária da região. Dividir as terras de forma honesta como seu pai queria.
    Em uma sexta pela manhã, enquanto trabalhava, Lisandra percebeu que as pessoas do local abriam espaço entre si e se entreolhavam com cara de medo. Recebia então a visita de um homem que nunca havia visto. Era Nhô Gualberto.
  - Tarde, Moça! Queria ter um dedinho de prosa com ocê! – Dizia com o chapéu junto ao peito.
O homem foi logo inventando a história das terras, assim como seu pai pediu, mas pela primeira vez se viu duvidoso. Não conseguiu se sustentar e passou a conversa inteira cortejando a moça da maneira que sabia.
  - Ô bem, vou pedir pro senhor me dar licença que eu estou atarefada com umas coisas por aqui. – Interrompeu Lisandra, toda seca, já sabendo das intenções do rapaz.
     A mulher sabia com quem estava falando. O homem mais sanguinário de Botumirim. Mas não sabia que estava frente a frente com o assassino que tanto procurava.
    Nhô Gualberto saiu em choque. Não sabia se estava com vergonha, raiva ou angústia. Nunca havia recebido uma negativa feminina. Chegou em casa de cabeça baixa e bufando que nem boi bravo. Pegou seu trinta e oito e disparou contra a parede três vezes assustando seu pai.
- Êêê, mas ocê endoidou de vez moleque? – Dizia Seu Sebastião das Dores com seu pescoço esticado vendo tudo da sacada.
     Mas como foi dito acima, pra camarada machista, a cegueira de amor transforma qualquer tipo de sentimento em ódio. Nhô Gualberto decidiu tirar satisfação com a moça. Saiu enfurecido no dia seguinte. Esquecera completamente do objetivo principal, as malditas terras que seu pai tanto pedira.
Chegou ao escritório onde a moça trabalhava a passos largos e arma em riste. Perguntava o nome da moça a todo o momento. Quando adentrou a sala, viu Lisandra em pé com o olhar fixo nele, que nem onça olhando capivara.
  - Onde o sinhozinho pensa que vai assim todo alvoroçado? - Perguntou a mulher já preparada. Nhô Gualberto pela primeira vez via uma mulher que além de lhe retrucar, não tinha medo de bala.
  - O senhor pensa que pode muito, mas enquanto ocê está indo com o feijão, a gente já vem com o tutu pronto. – Continuava Lisandra.
Nesse exato momento os trabalhadores da região junto com a justiça Federal cercavam as terras de Nhô Gualberto a fim de distribuí-las. Por fim o povo tinha conseguido a tão pelejada Reforma agrária da região.
    O acusado ficou sem ar, com os olhos estatalados de susto e com a arma em punho. Pela primeira vez se via apaixonado por uma mulher. Pela primeira vez estava provando do veneno que tanto usava para ferir. Sentia um misto de vergonha e ódio. Corrompido pelo sentimento e lesado pelas terras que estavam em risco. Seu dedo havia ficado duro que nem pedra. Carregava tantas mortes na carcunda, atirar naquele momento seria simples. Não conseguiu mover o gatilho do trinta e oito. Sabe-se lá se era porque gostava da mulher, ou porque tinha se borrado com a brabeza da moça. Subiu na caminhonete e saiu em disparada de volta à fazenda, a fim de conferir pessoalmente o escarcéu que tinha se formado.
    Quando Nhô Gualberto chegou, viu a polícia Federal conversando com seu pai. O povo cercava a casa e gritava de felicidade. Seu Sebastião das Dores não sabia onde enfiar a cara, a presença dos oficiais o amedrontava e tudo piorou quando surgiram denúncias de possíveis crimes na região, e um dos suspeitos era ele. O Estado que tanto protegeu os Barões, naquele dia teve que defender o povo. Nhô Gualberto esperneou do jeito que seu pai ensinou, mas não teve jeito, perderam quase todas “suas” terras além de saírem com denúncia nas costas.
    Até hoje em dia ninguém soube o que sobrou dos magnatas. Povo diz que perderam o resto das riquezas que tinham em jogatina, e hoje vivem a mendigar lá pelo sul da Bahia.
    Lisandra nunca soube ao certo quem matara seu pai, mas a satisfação e o objetivo maior que Seu Bentinho tanto pelejava ela havia conseguido. As terras que com o tempo foram tingidas de sangue, hoje estão de volta ao povo. A vingança havia perdido força. A justiça sobressaiu.
Por aqui as coisas funcionaram assim. Chumbo trocado. Aqui se fez, aqui se pagou.




(Felipe Leonardo)

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