quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A estátua do vô


      






         A tarde era tão quente e gostosa naquele dia em Uberlândia que todos os passarinhos e cachorros da rua pareciam conversar comigo. O vento que levantava a terra vermelha trazia também os olhos dos bichos. Todos os bichos pareciam sorrir para mim e pareciam estar em comunhão, menos as pessoas todas. Em pouco tempo uma multidão de conhecidos e desconhecidos se rodeava perto de algo que parecia ser muito triste e especial. Eu olhava pra cima e todas tão altas, estavam com os olhos a escorrer água, como as nascentes dos rios que meu avô me levava pra conhecer. Era como se seus olhos transbordassem de uma saudade que eu nunca tinha experimentado. Minha mãe me disse isso uma vez; as pessoas se deixam escorrer água pelos olhos quando algo muito grande não cabe mais por dentro.
Quando fui chegando mais perto, ao centro vi meu avô deitado em cima da mesa rodeado de flores como se fosse seu aniversário. Era como se toda aquela gente comemorasse o vô!
    Cantavam hinos de igreja e pareciam até que rezavam uma missa pra ele. Digo isso porque semana passada descobri o que era a missa. Minha mãe me levou no domingo de manhã para aquela casa gigante com pessoas bem arrumadas, de rostos sérios e que passavam muita paz. Via estátuas de mini pessoas com panos rodeados. Não eram crianças, mas estátuas de pessoas adultas pequenas como eu. Todas elas com semblantes tristes ou pensativos, como o rosto da prima Mariana depois de comer a feijoada da tia Selma.
    Creio que até hoje não entendi o por quê daquele homem fincado na cruz a escorrer sangue e todos a verem seu sofrimento. Minha mãe disse que aquele era Jesus e que morreu para salvar todos nós, e que as estátuas das mini pessoas eram os santos que faziam companhia a ele no céu. Jesus deve ser como um herói da Marvel que se sacrificou pra salvar todos os outros heróis. Achei bonito. Um dia compro uma camiseta de Jesus.
    Não conseguia esticar a cabeça para ver o vô mais de perto. A mesa onde o colocaram era muito alta e ainda por cima havia uma caixa onde o meteram dentro. Comecei a rir baixinho pois lembrei-me do Leléu, meu gato que adora meter-se dentro das caixas de madeira que sobram das quitandas.
Puxei o vestido da tia Selma:
- Por que o vô está imitando o Leléu?
Ela me olhou fungando o nariz e a escorrer água pelos olhos, e me mirou com um sorriso de canto de boca:
- O vô está descansando. Vai morar com Jesus.
Que estava descansando eu até suspeitava, mas que ele conheceria o homem da cruz isso foi novidade!
Sempre me diziam que imaginação de criança vai longe, e a minha, confesso que foi até demais. Abaixei a cabeça e me pus a refletir como todos alí estavam e até tive uma tristeza verdadeira. Meu avô se transformaria em estátua e nunca mais me sorriria ou mostraria as nascentes dos rios?
Preocupado, eu consegui tocar em sua cabeça. Ele estava dormindo de um sono tão profundo que tive até medo de acordá-lo. Um dia vi a vó acordando-o depois do almoço na semana, e ele ficou furioso e mau humorado! Jamais eu cometeria esse erro.
Sua testa estava gelada como nunca tinha visto antes. Ao mesmo tempo eu me gelei por dentro e senti um frio que percorreu toda minha espinha. Talvez o vô teria mesmo se transformado naquelas estátuas da igreja!
    Minha mãe me dizia que Jesus havia virado estátua, mas porque ele era duas pessoas. Uma ficava fincada na parede a participar das missas todos os domingos, enfeitando a visão dos fiéis e a lembrá-los da salvação com seu sacrifício. O outro Jesus era como vento que percorria todos os lugares sem se cansar, escutava e via tudo o que todos faziam. Nada escapava ao olhar dele que protegia-nos com seus poderes. Se nos filmes, Thor tinha seu martelo, Jesus devia ter uma arma tão boa quanto!
    Haviam-se passado horas e meu vô alí permanecia. Estava começando a sentir saudades dele pois não ouvia sua voz desde o dia anterior quando me despedi.
- Mãe, vamos acordar o vô, já está tarde, temos que ir!
Minha mãe naquele momento me puxou de canto e me explicou tudo. Me entristeci e senti a saudade escorrer pelos olhos pela primeira vez na vida. Jamais poderei tocar em meu avô de novo porque a estátua dele ficaria debaixo da terra. Como se o plantássemos para que virasse árvore.
Fecharam a caixa de gatos gigante. Todos os tios e primos mais fortes o carregaram nas mãos e fomos em cortejo até o cemitério. Cavaram um buraco de terra para o plantarem e nesse momento todos jogavam mais flores. As flores servem para enfeitar tudo. Desde postas em buquês para entregarmos a quem amamos, para enfeitar casamentos e até pra embelezar o cabelo das meninas e a fazerem mais charmosas. As flores morrem pelos outros. Nesse dia enfeitaram meu vô.
     A morte para os adultos é como uma despedida grande. Como se aquela caixa de gatos gigante fosse a nave espacial que levaria meu vô pra um lugar bem longe, pra além do céu. Ele iria fazer companhia a todos os heróis de lá. Jesus o receberia bem e o incorporaria em alguma liga de super heróis que só existe no céu.
     Quando voltamos para casa já sem a estátua do meu vô, pude entender o que minha mãe disse. O vô também tinha duas partes. Uma virou estátua, a outra viraria vento, estaria em todos os lugares que quiséssemos nos visitando todos os dias ao abrir as janelas.

Um comentário: