A tarde era tão quente e
gostosa naquele dia em Uberlândia que todos os passarinhos e cachorros da rua
pareciam conversar comigo. O vento que levantava a terra vermelha trazia também
os olhos dos bichos. Todos os bichos pareciam sorrir para mim e pareciam estar
em comunhão, menos as pessoas todas. Em pouco tempo uma multidão de conhecidos
e desconhecidos se rodeava perto de algo que parecia ser muito triste e
especial. Eu olhava pra cima e todas tão altas, estavam com os olhos a escorrer
água, como as nascentes dos rios que meu avô me levava pra conhecer. Era como
se seus olhos transbordassem de uma saudade que eu nunca tinha experimentado.
Minha mãe me disse isso uma vez; as pessoas se deixam escorrer água pelos olhos
quando algo muito grande não cabe mais por dentro.
Quando fui chegando mais
perto, ao centro vi meu avô deitado em cima da mesa rodeado de flores como se
fosse seu aniversário. Era como se toda aquela gente comemorasse o vô!
Cantavam hinos de igreja e
pareciam até que rezavam uma missa pra ele. Digo isso porque semana passada descobri
o que era a missa. Minha mãe me levou no domingo de manhã para aquela casa
gigante com pessoas bem arrumadas, de rostos sérios e que passavam muita paz. Via
estátuas de mini pessoas com panos rodeados. Não eram crianças, mas estátuas de
pessoas adultas pequenas como eu. Todas elas com semblantes tristes ou
pensativos, como o rosto da prima Mariana depois de comer a feijoada da tia
Selma.
Creio que até hoje não
entendi o por quê daquele homem fincado na cruz a escorrer sangue e todos a
verem seu sofrimento. Minha mãe disse que aquele era Jesus e que morreu para
salvar todos nós, e que as estátuas das mini pessoas eram os santos que faziam
companhia a ele no céu. Jesus deve ser como um herói da Marvel que se
sacrificou pra salvar todos os outros heróis. Achei bonito. Um dia compro uma
camiseta de Jesus.
Não conseguia esticar a
cabeça para ver o vô mais de perto. A mesa onde o colocaram era muito alta e
ainda por cima havia uma caixa onde o meteram dentro. Comecei a rir baixinho
pois lembrei-me do Leléu, meu gato que adora meter-se dentro das caixas de
madeira que sobram das quitandas.
Puxei o vestido da tia
Selma:
- Por que o vô está
imitando o Leléu?
Ela me olhou fungando o
nariz e a escorrer água pelos olhos, e me mirou com um sorriso de canto de boca:
- O vô está descansando.
Vai morar com Jesus.
Que estava descansando eu
até suspeitava, mas que ele conheceria o homem da cruz isso foi novidade!
Sempre me diziam que
imaginação de criança vai longe, e a minha, confesso que foi até demais.
Abaixei a cabeça e me pus a refletir como todos alí estavam e até tive uma
tristeza verdadeira. Meu avô se transformaria em estátua e nunca mais me
sorriria ou mostraria as nascentes dos rios?
Preocupado, eu consegui
tocar em sua cabeça. Ele estava dormindo de um sono tão profundo que tive até
medo de acordá-lo. Um dia vi a vó acordando-o depois do almoço na semana, e ele
ficou furioso e mau humorado! Jamais eu cometeria esse erro.
Sua testa estava gelada
como nunca tinha visto antes. Ao mesmo tempo eu me gelei por dentro e senti um
frio que percorreu toda minha espinha. Talvez o vô teria mesmo se transformado
naquelas estátuas da igreja!
Minha mãe me dizia que Jesus
havia virado estátua, mas porque ele era duas pessoas. Uma ficava fincada na parede
a participar das missas todos os domingos, enfeitando a visão dos fiéis e a lembrá-los
da salvação com seu sacrifício. O outro Jesus era como vento que percorria
todos os lugares sem se cansar, escutava e via tudo o que todos faziam. Nada
escapava ao olhar dele que protegia-nos com seus poderes. Se nos filmes, Thor
tinha seu martelo, Jesus devia ter uma arma tão boa quanto!
Haviam-se passado horas e
meu vô alí permanecia. Estava começando a sentir saudades dele pois não ouvia
sua voz desde o dia anterior quando me despedi.
- Mãe, vamos acordar o vô,
já está tarde, temos que ir!
Minha mãe naquele momento
me puxou de canto e me explicou tudo. Me entristeci e senti a saudade escorrer
pelos olhos pela primeira vez na vida. Jamais poderei tocar em meu avô de novo
porque a estátua dele ficaria debaixo da terra. Como se o plantássemos para que
virasse árvore.
Fecharam a caixa de gatos
gigante. Todos os tios e primos mais fortes o carregaram nas mãos e fomos em
cortejo até o cemitério. Cavaram um buraco de terra para o plantarem e nesse
momento todos jogavam mais flores. As flores servem para enfeitar tudo. Desde
postas em buquês para entregarmos a quem amamos, para enfeitar casamentos e até
pra embelezar o cabelo das meninas e a fazerem mais charmosas. As flores morrem
pelos outros. Nesse dia enfeitaram meu vô.
A morte para os adultos é como uma despedida
grande. Como se aquela caixa de gatos gigante fosse a nave espacial que levaria
meu vô pra um lugar bem longe, pra além do céu. Ele iria fazer companhia a
todos os heróis de lá. Jesus o receberia bem e o incorporaria em alguma liga de
super heróis que só existe no céu.

Conto lindo demais! Parabéns poeta!!🙌
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